Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.

Fiama Hasse Pais Brandão, Obra Breve, Poesia Reunida, Assírio & Alvim.
 Todos os dias ver os campos e nunca mais conhecer rua nenhuma.




2017-10-07

Não é necessário observar o trabalho de alguém
para saber se é essa a sua vocação,
basta olhá-lo nos olhos:
um cozinheiro apurando um molho,
um cirurgião abrindo a pele,
um escriturário preenchendo uma relação
de embarque, têm a mesma expressão
distraída, embevecidos na sua tarefa.
Que bela é essa devoção
do olho pelo objecto.
Ignorar a deusa sedutora,
abandonar os sacrários magníficos
de Rea, Afrodite, Demeter, Diana,
preferir rezar a S. Focas,
Santa Bárbara, S. Saturnino,
ou outro padroeiro qualquer,
de cujo mistério se seja merecedor,
que passo gigantesco foi dado.
Deveria haver monumentos e odes
aos heróis desconhecidos que começaram,
a quem arrancou as primeiras faíscas
da pederneira e esqueceu o jantar,
ao primeiro coleccionador de conchas
que ficou celibatário.
Se não fossem eles, ode estaríamos?
Ainda ferozes, sem hábitos caseiros,
errando através das florestas,
com nomes sem consoantes,
escravos da Dama gentil, sem
noções da civilidade
e hoje à tarde, para esta morte,
não haveria agentes funerários.
W.H. Auden, O Massacre dos Inocentes, Assírio & Alvim.
Mas o último deus que ninguém pode decifrar, ele mata-se lentamente a si mesmo, a imagem mata a Ideia. Condenado está também o último deus a morrer ao teu olhar. A morte é a única coisa que podemos adorar sem decepção, a morte temos de adorá-la para que 
a vida ressuscite.
No fim adoraste a morte. A vida ressurgiu.
Então te transfiguraste.


Gunnar Ekelöf, Antologia Poética.

Escrevi o poema a noite inteira,
uma insónia curvada sobre mim.
Minha filha ruiva apagou-se
na escuridão.
Uma pequena estrela lá fora.
A respiração inconsequente de um homem
que não conheço na minha casa.
Espalhei o insecticida nos cantos da cozinha,
morreram todas as formigas.
Uma morte certa espalhada no chão.
Cuspi nos pés e fui lavada para a cama,
sem pingo de veneno.


Como não invocar o
vício da poesia: o
corpo que entorpece
ao ar de versos?

excerto de João Cabral de Melo Neto, Poesia Completa, Glaciar.

Deixei inacabado o livro Senilidade, de Italo Svevo. Há uns meses que não pegava nele, já não me lembrava de Angelina há algum tempo. A melhor vingança que uma mulher pode fazer a um homem é deixá-lo totalmente rendido e não o amar. Mas Angelina é perversa, corrosiva, e eu gosto desse lado feminino também.

I

Desde logo, com as primeiras palavras que lhe dirigiu, pretendeu avisá-la de que não tencionava comprometer-se com uma relação muito séria.

X

Não devia deitar-se naquela cama; devia repudiar Angelina imediatamente e nunca mais voltar a vê-la. Mas agora sabia o que significava esse nunca mais: um sofrimento, uma saudade permanente, horas intermináveis de agitação, outras de sonhos dolorosos e depois a inércia, o vazio, a morte da fantasia e do desejo, um estado mais doloroso do que qualquer outro.


A MONTANHA-RUSSA

Durante meio século
A poesia foi
O paraíso do tolo solene.
Até que cheguei eu
E instalei-me com a minha montanha-russa.

Subam, se vos apetecer.
Claro que eu não respondo se descerem
A jorrar sangue pelo nariz e pela boca.

Nicanor Parra, Acho que vou morrer de poesia, antologia breve, Língua Morta.



Enquanto lia com o Pedro a Ode Triunfal, deu-me vontade de vomitar. "Isto, Pedro, não é nenhuma Ode, é desencanto. Olha bem o tom, o sarcasmo, a ironia, a crítica, a merda contemporânea." "Mas a professora disse que era um elogio à máquina." "Está bem, Pedro. É o que ela quiser." Levantei-me e fui para a rua arejar um pouco. Calcei as luvas, passei pela casa do Pessoa e saudei-o. Também eu tenho os lábios secos, há muito tempo não vejo uma fonte cristalina, nunca mais meti a cabeça num rio lodoso. Não. A vida cosmopolita de Lisboa. Turistas em todo o lado e miséria banal. Rendas astronómicas e colégios para meter a menina, coitadinha, vai lá aprender muito. Levar a vida no café era o que eu queria, como a Margarida. Puxar da cigarrilha e o fumo subir-me aos olhos enquanto passa o 28 apinhado. E aqueles dois sempre no Pingo Doce com os cães asquerosos a pedir esmola? Trabalho! Não conhecem? O corre-corre? Sim, Senhor chefe, bom dia a toda a gente. Embriaguez nas festas de Natal da empresa para compreenderem melhor esta rica vidinha. Aqui é tudo útil! Claro que é um elogio, que mais poderia ser? "Boa tarde, Senhora D. Maria, vem buscar a menina?" "Não, venho ler-lhe a Ode Triunfal." E o porteiro ficou parvo a olhar para mim. Desciam os meninos de boas famílias pelas escadas e eu rangendo os dentes por causa do Álvaro de Campos.

Enquanto dormes, fico imóvel,
observando atrás da pequena rede o teu rosto.
O sol aquece Janeiro,
cintilam tuas mãos. Rezo.
Que bem te guarde.
Conheço o mal da rua, deixo limpo o ar
de casa para ti.
Enquanto dormes, choro baixinho.
Como se adivinhasses, abres teus olhos azuis,
sorris, perdoas as minhas falhas.
Fazes tu o papel desse grande Deus ausente.

Caminhei em direção à escola. Vi uma mulher pendurada nos fios do eléctrico. Um homem, ao fundo, batia no fio com um ferro. Dizia palavras de amor e tremia. A mulher soltou-se e continuou em direção ao Jardim da Estrela. O homem chamava-a, mas ela não ouvia.
Os corredores da escola são sombrios, porém, as salas são luminosas, o sol entra fortemente no espaço logo pela manhã. É uma pena quando os alunos pedem para correr os cortinados, não vêem o que está escrito no quadro. É tão simples a linguagem solar, aquece imediatamente o corpo, ilumina os fios de cabelo e atenua as imperfeições da pele. Não apaguei o sol. Desta vez, não. Pus-me a ditar e observei, posteriormente, os cadernos com erros. Que bom errar perante o sol. Que interessa, afinal, a gramática? 

*

A minha filha tenta sentar-se e cai. Continua a tentar a tarde toda, por vezes, quase cai da espreguiçadeira. Pergunto-me como pari um ser tão belo e meigo. Deve trazer alguma catástrofe. Beijo-a e amo-a de uma forma estranha. Tanto a Lúcia como a Carmem choraram quando deixaram os filhos no berçário. Contaram-me que se fartaram de chorar. Eu não. Soube-me bem, para ser honesta, passar as horas da manhã totalmente só. Pensei nela, não sei se sentiu a minha falta. Quando a fui buscar, sorriu e adormeceu. Preciso calar-me em frente das outras mães, não posso dizer que o parto foi horrível, que a falta de sono é algo que me poderia bem enlouquecer, que estou farta de as ouvir falar de papas e cocós. A maternidade não é a coisa mais bonita do mundo. A minha filha não é minha, um dia, voará e eu sei que não comando nada na minha vida, muito menos na dela.
Recebi das mãos do K. a Poesia Completa, do João Cabral de Melo Neto. Ele disse que é meu, se um dia for embora, todos os livros com meu nome, são meus. Pena, disse-lhe, já que não assino grande parte, apenas os leio.

Agora, sou um sujeito cínico, pessimista, negativista, tenho tudo que faz um suicida, mas não tenho a coragem de me matar. [...] Tenho pavor da morte, não por deixar de viver, mas por não saber o que vou encontrar depois. (1987)

Para vir a saborear tudo
Não queiras saborear nada.
Para vir a saber tudo
Não queiras saber de nada.
Para vir a possuir tudo
Não queiras ter nada de nada.
Para vir a ser tudo
Não queiras ser nada em nada.

São João da Cruz, Escritos Breves, Obras Completas.
Como são belas e altas as árvores da rua
quando passam homens e mulheres
que largam folhas.

Este é um excelente livro para crianças. Tenho a versão em português, com tradução de Maria Teresa dos Santos Silva. Lê-lo-ei à minha filha quando ela crescer um pouco mais. E, claro, a história da Árvore Generosa. Por vezes, desejo que ela cresça depressa e ela cresce, ouvimos música, lemos e aumentamos.





Há músicas que me emocionam. Poucas coisas me emocionam tanto como a música e a natureza. Vou ficando pela cidade, encontrei hoje o homem sujo a pedir esmola. Não lhe dei nada. Nem um pão nem um euro. Limitei-me a olhar e a empurrar o carrinho de bebé. Estava muito frio, muito vento. A minha filha dormia, as pessoas passavam. Sentei-me um pouco no jardim Teófilo Braga. Que mundo de esterco, superficialidade, fugacidade, tudo tão oco e descartável. As árvores duram menos. A montanha foi esventrada para passar mais uma autoestrada. Cada vez odeio mais a cidade por me sentir parte desta vida aburguesada e inútil. Estava habituada a pegar na enxada, a cavar bem fundo o buraco, plantava árvores, regava as flores, fazia marmelada nesta altura. No fim do dia, limpava o pó das narinas, cuspia na banheira e tudo ia pelo ralo. Talvez a minha mãe já não me conheça. A minha filha pequena nos meus braços de cadáver. Que perigo ser mãe de um ser tão indefeso nesta época e neste lugar. Gostava de me ir embora e não vou, não irei. Ficarei por cá. Pelo menos, posso sempre ver o mar.





O livro de poesia de Guillevic é dos mais belos que já li. Releio-o ao longo dos dias.



Mais tu sais trop qu'on te préfère,
Que ceux qui t'ont quittée


Te trouve dans les blés,
Te recherchent dans l'herbe
T'écoutent dans la pierre,
Insaisissable.

Poesias de Guillevic, Editora Ulisseia.

Quem é que conhece a fome?
Uma mulher batendo no peito
para um coração abrandar.





Guarda a beleza,
Dela nunca te percas.
Crê no Amor como nas estações.
Se a aflição te visitar,
Atira pedras ao rio,
Segura peixes, chora a tua humanidade.
Segue os pastores pelos montes,
Planta árvores, isso é muito importante.
Escreve uma história
Que nunca foi tua.
Não ignores quem te estende a mão na rua,
Dedica-lhe o teu tempo e atenção.
Tens saudades do mundo?
Vai à janela e grita, faz isso hoje.
Começa pelos pássaros, sempre pelos pássaros.

Guarda a beleza,
Ergue-a bem alto, de pulsos abertos
Contra a morte.

CARTAS A LUCÍLIO


Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.

De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando.

Lê, portanto, constantemente autores de confiança e quando sentires vontade de passar a outros, regressa aos primeiros.

Reflecte todos os dias em qualquer texto que te auxilie a encarar a indigência, a morte, ou qualquer calamidade; escolhe um passo que alimente a tua meditação durante o dia.

Queres saber qual é a coisa que com maior empenho deves evitar? A multidão!

É-nos prejudicial o convívio com muita gente: não há ninguém que não nos pegue qualquer vício, nos contagie, nos contamine sem nós darmos por isso.

Interrompe-se o espectáculo: "enforquem alguns homens entretanto, para fazer qualquer coisa".



Séneca, Cartas a Lucílio, Fundação Calouste Gulbenkian.






Acho que vou morrer de poesia


Eu andava de um lado para o outro, é verdade,
A minha alma flutuava pelas ruas
Pedindo socorro, pedindo um pouco de ternura;
Com uma folha de papel e um lápis eu entrava nos cemitérios 
Disposto a não me deixar enganar.



Excerto do poema Lembranças da juventude, Acho que vou Morrer de Poesia, Nicanor Parra, Língua Morta, 2015.

Limpar os olhos ao sol
e ver cair o pó
durante noites.

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Fugir da chuva
para que a água não arraste
da nossa pele
uma espécie de medo branco.

imagino como seria te amar


teria o gosto estranho das palavras

que brincamos
                      e a seriedade de quando esquecemos
quais palavras


imagino como seria te amar:

desisto da idéia numa verbal volúpia
e recomeço a escrever
                                       poemas.


Ana Cristina Cesar, Um Beijo que Tivesse um Blue, edições quasi.







Não te curves senão para amar. Se morreres, continuas a amar.


René Char, Furor e Mistério, Trad. de Margarida Vale de Gato, Relógio D' Água, 2000.