Guarda a beleza,
Dela nunca te percas.
Crê no Amor como nas estações.
Se a aflição te visitar,
Atira pedras ao rio,
Segura peixes, chora a tua humanidade.
Segue os pastores pelos montes,
Planta árvores, isso é muito importante.
Escreve uma história
Que nunca foi tua.
Não ignores quem te estende a mão na rua,
Dedica-lhe o teu tempo e atenção.
Tens saudades do mundo?
Vai à janela e grita, faz isso hoje.
Começa pelos pássaros, sempre pelos pássaros.

Guarda a beleza,
Ergue-a bem alto, de pulsos abertos
Contra a morte.

CARTAS A LUCÍLIO


Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.

De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando.

Lê, portanto, constantemente autores de confiança e quando sentires vontade de passar a outros, regressa aos primeiros.

Reflecte todos os dias em qualquer texto que te auxilie a encarar a indigência, a morte, ou qualquer calamidade; escolhe um passo que alimente a tua meditação durante o dia.

Queres saber qual é a coisa que com maior empenho deves evitar? A multidão!

É-nos prejudicial o convívio com muita gente: não há ninguém que não nos pegue qualquer vício, nos contagie, nos contamine sem nós darmos por isso.

Interrompe-se o espectáculo: "enforquem alguns homens entretanto, para fazer qualquer coisa".



Séneca, Cartas a Lucílio, Fundação Calouste Gulbenkian.






Acho que vou morrer de poesia


Eu andava de um lado para o outro, é verdade,
A minha alma flutuava pelas ruas
Pedindo socorro, pedindo um pouco de ternura;
Com uma folha de papel e um lápis eu entrava nos cemitérios 
Disposto a não me deixar enganar.



Excerto do poema Lembranças da juventude, Acho que vou Morrer de Poesia, Nicanor Parra, Língua Morta, 2015.

Limpar os olhos ao sol
e ver cair o pó
durante noites.

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Fugir da chuva
para que a água não arraste
da nossa pele
uma espécie de medo branco.

imagino como seria te amar


teria o gosto estranho das palavras

que brincamos
                      e a seriedade de quando esquecemos
quais palavras


imagino como seria te amar:

desisto da idéia numa verbal volúpia
e recomeço a escrever
                                       poemas.


Ana Cristina Cesar, Um Beijo que Tivesse um Blue, edições quasi.







Não te curves senão para amar. Se morreres, continuas a amar.


René Char, Furor e Mistério, Trad. de Margarida Vale de Gato, Relógio D' Água, 2000.






UIVO

Para Carl Solomon


I


Eu vi as mentes mais brilhantes da minha geração destruídas pela
       loucura, famintas, histéricas, nuas,
a arrastarem-se na aurora pelas ruas de negros em busca de uma
      dose feroz,
gingões e angélicas cabeças ardendo pelo velho contacto celeste
      com o dínamo estelar na maquinaria da noite,
que de miséria e andrajos e olhos cavos e alucinados se sentavam
      a fumar na penumbra sobrenatural de quartos de águas frias
flutuando pelos cumes das cidades contemplando o jazz [...]


Allen Ginsberg, Uivo e Outros Poemas, Trad. Margarida Vale de Gato, Relógio D' Água 2014.

À entrada do teu corpo:

foste quase uma doença.

VERTIGENS OU CONTEMPLAÇÃO DE 
QUALQUER COISA QUE TERMINA



Este lilás desfolha-se.
De si mesmo cai
e oculta a sua antiga sombra.
Hei-de morrer de coisas assim.


Alejandra Pizarnik, Extracção da Pedra da Loucura, Língua Morta, 2013.







Chove e tenho tosse. 
Não tenho mais nada.
Passam barcos no Tejo, para onde irão?
Se tivesse o que desejar, também partia,
levava esta tosse como posse
e alguma poesia.


Consagração à Tristeza


Ser triste como as paisagens
uma mão aberta
no Outono
a soltar folhas.

SOMA


Não discuto se sou feliz ou não.
Mas de uma coisa faço por lembrar-me sempre:
que nessa grande soma — a deles, que eu detesto
de tantas e tantas parcelas, não sou
uma delas. Eu nunca fui contado
para a soma total. Esta alegria basta.


Constantino Cavafy, 90 e mais quatro poemas, Trad. de Jorge de Sena, Asa, 2003.




POESIA

Eu também não gosto dela.
Ao ser lida, porém, com um total desprezo, descobre-se
apesar de tudo que o genuíno aí tem o seu lugar.



Marianne Moore, Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop, Campo das Letras.




Repara no que acontece com a morte dos outros e ficas a saber que o universo se está nas tintas para que morras ou não. E isso é que é incompreensível – morrer tudo com a tua morte e tudo ficar perfeitamente na mesma.

Vergílio Ferreira 


Good times are coming
I hear it everywhere i go
Good times are coming
But they're sure coming slow.

Neil young




Foi a fome que se instalou na minha boca.
Uma fome a mais.

No meu âmago, reina o vento.
Que ninguém se agarre a mim.

E se pudesse comer sempre,
voltaria a sentir fome, obstinadamente.





Aqui jaz o que sempre se escapou
E só agora é que se realizou

Samuel Beckett, O primeiro amor, Trad. de Rui Caeiro, Hiena Editora, 1985.



Qual a melhor forma de preparar a morte?
Andar por aí a doer, fechar os punhos?
Respirar canos de escape no meio da cidade?
Criar dependência em relação ao trabalho?
Esmurrar ideias que não levam a nada?
Cair nos buracos esculpidos por granadas e rir com os outros? Como os outros?
Tenho pensado, vou esperando.
E agora vou tomar banho, nunca se sabe se é o último.
Decerto até encho a banheira, arranja-se um banho cinematográfico.




Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê... 


Florbela Espanca





Já se disse que o silêncio era uma força; num sentido completamente diferente, ele é uma força, e terrível, à disposição daqueles que são amados. Uma força que aumenta a ansiedade de quem espera. Nada convida tanto alguém a aproximar-se de um ser como o que dele o separa, e que barreira existe mais intransponível que o silêncio? Já se disse também que o silêncio era um suplício, e capaz de enlouquecer aquele que nas prisões a ele estava obrigado. Mas que suplício – maior que o de guardar silêncio – é o de sofrer o silêncio de quem se ama!


Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido.




Ando obcecada pela escrita desta müller.
Oh, abençoada obsessão!




A erva anda alta na cabeça. Falamos e é cortada. Mas também se nos calamos. E a segunda, a terceira erva volta a crescer, a seu bel-prazer. E contudo temos sorte.

Queria que o amor voltasse a crescer como a erva cortada. Que ele cresça de modo diverso, como os dentes das crianças, como o cabelo, como as unhas. Que ele cresça como queira.

Herta Müller

O cesteiro da aldeia 
tem oitenta anos.
É solteiro, vive só.
Trabalha na sua oficina,
junto da estrada irregular.
De tarde, entrança varas cegas
que apanha do chão.
A rapariga do Inverno
leva um cesto na cabeça,
e o filho pela mão.







Vi um homem a perseguir o horizonte;
Andava às voltas a grande velocidade.
Fiquei perturbado com tal visão;
Abeirei-me do homem.
"É inútil", disse-lhe,
"Jamais conseguirás..."

"Estás a mentir", gritou ele,
E continuou a correr.


Stephen Crane, Trad. de Vasco Gato.




"Ás vezes tenho de morder os dedos para sentir que ainda existo."

"As zonas interiores não coincidem com a linguagem, arrastam-nos para lugares onde as palavras não podem estar."

"Quando nos calamos, tornamo-nos incómodos
- quando falamos, tornamo-nos ridículos"


Herta Müller, O Rei Faz Vénia e Mata, Texto Editores, 2011.

4#

O velho cuspiu nos sapatos e puxou o lustro. Esfregava, calado. As mãos grandes, gretadas, sujas, calejadas da enxada, repetiam o movimento. Levantou os olhos.
Ao longe, ouviu-se o ganido de um cão. O ganido começou a correr pelos campos, o velho deixou de dar brilho aos sapatos. O cão foi pontapeado e gania. O velho escarrou. Na aldeia, há uma brutalidade terrível. Mas todos rezam muito. O sino faz-se ouvir durante o dia. Pouco se fala, trabalha-se no campo com as duas mãos e o corpo. A língua ajuda a boca a cuspir para abrilhantar os sapatos ou a alma.

Hoje dizia-te que pareço um armário. Antes, calava-me, ignorava o que podia, isolava-me. Preciso esvaziar-me, fazer uma limpeza. Encheram-me tanto que, a dada altura, perdi-me totalmente. Andei longe de mim. Agora não. Ninguém vê, ainda sei fingir a cara. Só me vêem a cara fingida. Aprendi a fingir muito bem. Só Deus sabe. Deus é omnipotente, omnisciente, omnipresente. E até finjo diante de Deus.
Este meio não tem nada que anseie. Só amo as árvores e o vento deitado sobre a erva. Os bichos que sobrevivem.
Ando extremamente inquieta com os mortos sem nome no cemitério da aldeia. E há tantos mortos sem nome pelo mundo!