Recebi das mãos do K. a Poesia Completa, do João Cabral de Melo Neto. Ele disse que é meu, se um dia for embora, todos os livros com meu nome, são meus. Pena, disse-lhe, já que não assino grande parte, apenas os leio.

Agora, sou um sujeito cínico, pessimista, negativista, tenho tudo que faz um suicida, mas não tenho a coragem de me matar. [...] Tenho pavor da morte, não por deixar de viver, mas por não saber o que vou encontrar depois. (1987)

Para vir a saborear tudo
Não queiras saborear nada.
Para vir a saber tudo
Não queiras saber de nada.
Para vir a possuir tudo
Não queiras ter nada de nada.
Para vir a ser tudo
Não queiras ser nada em nada.

São João da Cruz, Escritos Breves, Obras Completas.
Como são belas e altas as árvores da rua
quando passam homens e mulheres
que largam folhas.

Este é um excelente livro para crianças. Tenho a versão em português, com tradução de Maria Teresa dos Santos Silva. Lê-lo-ei à minha filha quando ela crescer um pouco mais. E, claro, a história da Árvore Generosa. Por vezes, desejo que ela cresça depressa e ela cresce, ouvimos música, lemos e aumentamos.





Há músicas que me emocionam. Poucas coisas me emocionam tanto como a música e a natureza. Vou ficando pela cidade, encontrei hoje o homem sujo a pedir esmola. Não lhe dei nada. Nem um pão nem um euro. Limitei-me a olhar e a empurrar o carrinho de bebé. Estava muito frio, muito vento. A minha filha dormia, as pessoas passavam. Sentei-me um pouco no jardim Teófilo Braga. Que mundo de esterco, superficialidade, fugacidade, tudo tão oco e descartável. As árvores duram menos. A montanha foi esventrada para passar mais uma autoestrada. Cada vez odeio mais a cidade por me sentir parte desta vida aburguesada e inútil. Estava habituada a pegar na enxada, a cavar bem fundo o buraco, plantava árvores, regava as flores, fazia marmelada nesta altura. No fim do dia, limpava o pó das narinas, cuspia na banheira e tudo ia pelo ralo. Talvez a minha mãe já não me conheça. A minha filha pequena nos meus braços de cadáver. Que perigo ser mãe de um ser tão indefeso nesta época e neste lugar. Gostava de me ir embora e não vou, não irei. Ficarei por cá. Pelo menos, posso sempre ver o mar.





O livro de poesia de Guillevic é dos mais belos que já li. Releio-o ao longo dos dias.



Mais tu sais trop qu'on te préfère,
Que ceux qui t'ont quittée


Te trouve dans les blés,
Te recherchent dans l'herbe
T'écoutent dans la pierre,
Insaisissable.

Poesias de Guillevic, Editora Ulisseia.

Quem é que conhece a fome?
Uma mulher batendo no peito
para um coração abrandar.





Guarda a beleza,
Dela nunca te percas.
Crê no Amor como nas estações.
Se a aflição te visitar,
Atira pedras ao rio,
Segura peixes, chora a tua humanidade.
Segue os pastores pelos montes,
Planta árvores, isso é muito importante.
Escreve uma história
Que nunca foi tua.
Não ignores quem te estende a mão na rua,
Dedica-lhe o teu tempo e atenção.
Tens saudades do mundo?
Vai à janela e grita, faz isso hoje.
Começa pelos pássaros, sempre pelos pássaros.

Guarda a beleza,
Ergue-a bem alto, de pulsos abertos
Contra a morte.

CARTAS A LUCÍLIO


Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.

De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando.

Lê, portanto, constantemente autores de confiança e quando sentires vontade de passar a outros, regressa aos primeiros.

Reflecte todos os dias em qualquer texto que te auxilie a encarar a indigência, a morte, ou qualquer calamidade; escolhe um passo que alimente a tua meditação durante o dia.

Queres saber qual é a coisa que com maior empenho deves evitar? A multidão!

É-nos prejudicial o convívio com muita gente: não há ninguém que não nos pegue qualquer vício, nos contagie, nos contamine sem nós darmos por isso.

Interrompe-se o espectáculo: "enforquem alguns homens entretanto, para fazer qualquer coisa".



Séneca, Cartas a Lucílio, Fundação Calouste Gulbenkian.






Acho que vou morrer de poesia


Eu andava de um lado para o outro, é verdade,
A minha alma flutuava pelas ruas
Pedindo socorro, pedindo um pouco de ternura;
Com uma folha de papel e um lápis eu entrava nos cemitérios 
Disposto a não me deixar enganar.



Excerto do poema Lembranças da juventude, Acho que vou Morrer de Poesia, Nicanor Parra, Língua Morta, 2015.

Limpar os olhos ao sol
e ver cair o pó
durante noites.

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Fugir da chuva
para que a água não arraste
da nossa pele
uma espécie de medo branco.

imagino como seria te amar


teria o gosto estranho das palavras

que brincamos
                      e a seriedade de quando esquecemos
quais palavras


imagino como seria te amar:

desisto da idéia numa verbal volúpia
e recomeço a escrever
                                       poemas.


Ana Cristina Cesar, Um Beijo que Tivesse um Blue, edições quasi.







Não te curves senão para amar. Se morreres, continuas a amar.


René Char, Furor e Mistério, Trad. de Margarida Vale de Gato, Relógio D' Água, 2000.






UIVO

Para Carl Solomon


I


Eu vi as mentes mais brilhantes da minha geração destruídas pela
       loucura, famintas, histéricas, nuas,
a arrastarem-se na aurora pelas ruas de negros em busca de uma
      dose feroz,
gingões e angélicas cabeças ardendo pelo velho contacto celeste
      com o dínamo estelar na maquinaria da noite,
que de miséria e andrajos e olhos cavos e alucinados se sentavam
      a fumar na penumbra sobrenatural de quartos de águas frias
flutuando pelos cumes das cidades contemplando o jazz [...]


Allen Ginsberg, Uivo e Outros Poemas, Trad. Margarida Vale de Gato, Relógio D' Água 2014.

À entrada do teu corpo:

foste quase uma doença.

VERTIGENS OU CONTEMPLAÇÃO DE 
QUALQUER COISA QUE TERMINA



Este lilás desfolha-se.
De si mesmo cai
e oculta a sua antiga sombra.
Hei-de morrer de coisas assim.


Alejandra Pizarnik, Extracção da Pedra da Loucura, Língua Morta, 2013.







Chove e tenho tosse. 
Não tenho mais nada.
Passam barcos no Tejo, para onde irão?
Se tivesse o que desejar, também partia,
levava esta tosse como posse
e alguma poesia.


Consagração à Tristeza


Ser triste como as paisagens
uma mão aberta
no Outono
a soltar folhas.

SOMA


Não discuto se sou feliz ou não.
Mas de uma coisa faço por lembrar-me sempre:
que nessa grande soma — a deles, que eu detesto
de tantas e tantas parcelas, não sou
uma delas. Eu nunca fui contado
para a soma total. Esta alegria basta.


Constantino Cavafy, 90 e mais quatro poemas, Trad. de Jorge de Sena, Asa, 2003.




POESIA

Eu também não gosto dela.
Ao ser lida, porém, com um total desprezo, descobre-se
apesar de tudo que o genuíno aí tem o seu lugar.



Marianne Moore, Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop, Campo das Letras.




Repara no que acontece com a morte dos outros e ficas a saber que o universo se está nas tintas para que morras ou não. E isso é que é incompreensível – morrer tudo com a tua morte e tudo ficar perfeitamente na mesma.

Vergílio Ferreira 


Good times are coming
I hear it everywhere i go
Good times are coming
But they're sure coming slow.

Neil young




Foi a fome que se instalou na minha boca.
Uma fome a mais.

No meu âmago, reina o vento.
Que ninguém se agarre a mim.

E se pudesse comer sempre,
voltaria a sentir fome, obstinadamente.





Aqui jaz o que sempre se escapou
E só agora é que se realizou

Samuel Beckett, O primeiro amor, Trad. de Rui Caeiro, Hiena Editora, 1985.



Qual a melhor forma de preparar a morte?
Andar por aí a doer, fechar os punhos?
Respirar canos de escape no meio da cidade?
Criar dependência em relação ao trabalho?
Esmurrar ideias que não levam a nada?
Cair nos buracos esculpidos por granadas e rir com os outros? Como os outros?
Tenho pensado, vou esperando.
E agora vou tomar banho, nunca se sabe se é o último.
Decerto até encho a banheira, arranja-se um banho cinematográfico.




Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê... 


Florbela Espanca





Já se disse que o silêncio era uma força; num sentido completamente diferente, ele é uma força, e terrível, à disposição daqueles que são amados. Uma força que aumenta a ansiedade de quem espera. Nada convida tanto alguém a aproximar-se de um ser como o que dele o separa, e que barreira existe mais intransponível que o silêncio? Já se disse também que o silêncio era um suplício, e capaz de enlouquecer aquele que nas prisões a ele estava obrigado. Mas que suplício – maior que o de guardar silêncio – é o de sofrer o silêncio de quem se ama!


Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido.




Ando obcecada pela escrita desta müller.
Oh, abençoada obsessão!